Domingo, 28 de Junho de 2009

Hermes

e das coisas todas, todas nada
e do nada, preenche meus olhos um domingo
seco, o nada, o domingo, os olhos
fico a passear por nihís diversos
e da diversidade as imagens e prismas
e signos e alegorias e malabares
e de todas as faces, todas nada...
o vento rápido e frio e seu cheiro me invadem sem pedir licença
e sem fechar a porta rodopia em minha pele e me fala que vai chover
e a chuva dançando nas luzes dos postes
e a chuva doce...
das coisas todas, todas nada
e no nada, liberto do tempo e tudo
a chuva trás o inverno e faz florescer
eu, fico a passear por nihís diversos
e interno a ele e além e ausente dele
molhado, doce a segurar a primavera

Sábado, 13 de Junho de 2009

Do lamber o mundo

vontade de pintar a pele
de ser tinta capilarizada em fractais mouros
vontade do corpo sublimar em quadro entelado
e do metabólico se tornar vadio e ser
sobretudo transparecer
surrealidades afins
simpáticos fractais mouros
cheiros de chá
e danar-se a tudo o que é transcendente e imanente e eloqüente e sistematicamente constituído de signos simbólicos relativos a uma possível imagem que se teria, que se gostaria que tivesse, que se seria possível pudesse ter do que seria o ser tal qual é em essência
vontade de pintar a pele e a mente e tudo o mais
e fantasiado de fauno
e mais que isso
e fauno eu próprio

não mais pronunciar nada em vida
e ter a pele como instância suprema do verbo e do ouvido
manchada, subjetivada
evaporando no vento inspirações de dionísios diversos...

Sábado, 23 de Maio de 2009

Sem título quase rasgado

a cidade em chamas, o fogo dança são fogueiras de junho, vinho, chuva, ruas de pedra, o porto...
bêbado, confusão e fumaça
a música perpassa o sentido
os objetos, seu peso, rodopiam
a eles sou sensível
e a mim mesmo, como estrangeiro andarilho, no espelho olho, indago, sinto, como sentir o vento sendo etéreo...
a cidade em chamas
fogo sussurra melodias
chuva escorre pelas pedras
a música perpassa o sentido
fumaça, cigarro e café
os objetos, seu peso, estáticos
a eles sou sensível
em mim mesmo os cristalizo
e então cinza e então sem calor ou frio
me vejo partir, meu corpo de chumbo
e a mim memso, como fantasma, no espelho olho, em fogo morto, brasa fria...
e se olho o fogo, sem face e se olho o chumbo, sem vida...
...

Estalactites

tempo escorre
meses de chuva, lodo
fica impregnado na parede
ignorado, ele e tudo mais
a realidade em transe
irrealidade banal
escorre o lodo em desenhos de acaso
um mundo, um mendigo, um deus
flores, faunos...
amplamente, coletivamente ignorados
o tempo escorre pelos bueiros
a chuva em pasta viva
se perde na objetividade do concreto
máquinas... o ocupam rotineiramente
eu, nem máquina, nem lodo, nem nada...
que as luzes do metrô me ofusquem a vista...

Domingo, 26 de Abril de 2009

Cinzas de canela

o sol brilha e seu brilho lacera
eu, enquanto corpo pulsante, me solidifico
eu, enquanto calor pulsante, me intensifico
e então o corpo, mais ferro, cimento
e então o calor, mais diesel e gasolina
pedidos, demandas, fome
imperativos
alimente seu ser ativo, diz
agressivo, dominante
tenha sentido!, diz
militante
milite
...
eu, enquanto ausência indefinida, paraliso
e então a incerteza e o indesejo
de ferrocimentodieselgasolina
e de qualquer outra comida
em choque com o sangue bruto ou sublime
coagula...
consigo ver tudo (quase tudo)
consigo dizer tudo (quase tudo)
pouco ou nada faz sentido...
a ação é bruta
a palavra é bruta
e isso também do parado e silêncio...
recuso... recuso tudo
me projeto o caos
e projeções não existem
e existe
e existo
não posso inexistir
não quero
e o quero
mas não quero, enfim
e que faço, meu amor, me diz?
faço isso
termina o papel
cesso...

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Questões de amor e ódio...

"Pato (http://bolotosco.blogspot.com) diz:
posterioris são pasteis
(nossa! mais uma frase de efeito! devia anotar...)
c diz:
hahahahaahahhaha
anota, anota!
Pato (http://bolotosco.blogspot.com) diz:
rs
colocar em um canto de destaque..."


Obviamente a parte "canto de destaque" foi uma mentira social pro ego do blog em questão...

Domingo, 19 de Abril de 2009

Stardust II

sinto todos os pedaços que me faltam
em sua presença imaterial, em sua essência
sinto, pedaços me faltam
eu imaterial, névoa...
eu, névoa
dissipo ao movimento violento dos objetos
rodopiam as moléculas bêbadas no ar
eu, objeto
insigne, indistinto, insublime
movimento violento dos objetos
rodopio, moléculas bêbadas no ar...
cintilante, cacos de vidro
hão de retalhar suavemente meu eu indistinto ou perder-se no ar
mas que retalhem, que abram vales e impregnem
e eu, imaterial, objeto
me aproxime dos pedaços que me faltam
e então a flor da pele, nua de epiderme
cheio de gotículas de sangue, azuis
e suje sua pureza imaterial
com o doce dos cacos impregnados
como manchas de amora
como manchas...
lilás