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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Caleidoscópio

sonhei um orfanato
era criança
todos eram os meus
nenhum era
noite molhada de chuva em dia de cometa
ultimo dia da era, derretendo, se tornando macio e lamacento
uma semente vermelha cintilante que virá
a orfandade uma prisão... dividíamos cigarros, as crianças, tudo era meu, das crianças, nada era
meu corpo se perdia na insignificância de não ter o que perder
e meu corpo se fazia livre por comungar da miséria de tudo que havia
uma irmã se tinha ido embora numa tristeza de outono
invadimos seu quarto, escondido atrás das voltas da escada em caracol
uma luneta de copos de vidro e uma janela a se olhar a lua
segredo que calava em uma criança, na irmã, em ninguém
e todas as coisas místicas que se escondiam em cinzar de incenso
e o cometa
de encontro a noite derretida como viesse copular
como tivesse passado por ali o Caio, que tivesse ido embora numa tarde de outono e esquecido seu tarot, arcanos maiores do Crowley, dentro de uma gaveta, com pequenas coisas ao redor
realizei pouco antes de acordar, aquele quarto era meu, e o cometa e a chuva, a irmã de outono, as cinzas do Caio, a criança, a miséria virtuosa
senti por um momento... e te encontrei por lá
em qualquer coisa que faça parte de um eu que existe
onde me encontro
ou onde deliro

sábado, 20 de março de 2010

tricô de poncho azul

gravei na minha pele um desenho que era teu
com talho de agulha e ferro quente me marquei de ti
no pulso, entre minhas linhas, acima, pelo braço e pelas mãos
acima, no pescoço, acima, nos dedos
nas pontas dos dedos entrando pelos ossos, entrando pelos nervos
e o ferro que me corre nas veias se formou em pedras na garganta nos olhos e estômago
cuspi e bebi sangue
gravei na parede um desenho que era teu
com pequenas linhas de dedos insone
o mofo e a borra do cinzeiro me fizeram as sombras
na imagem do teu choro que expia e cessa e esquece
na imagem do teu choro o meu a ferro forma pedras
cuspi e bebi a bile nauseada da minha ânsia que corria pelos olhos sem cessar nem esquecimentos
numa expiação que transborda e se mata em brasa fria
pra que não de todo morra e se erga
e se jogue novamente

hoje senti que tu se foi... o pensamento me enlouquece...

terça-feira, 9 de março de 2010

na noite vermelho e cinza

subir muito alto
subir, correr, transmutar em luz no infinito das estepes
cair, cair em si, cair delirante em si fora de si
enjôo e orgasmos
epiléptico de gozo em convulsão, convulsiona em enjôo, espasmo
da serpente farpada que me abraça e me fere os nervos
da serpente cruel e farpada que me sai das entranhas e arrasta meus dedos pela pele

ontem encontrei um pardal... ele me disse "vai-te quebrar as costas com o tempo"
sufoquei-o no estômago "antes disso um anjo de chumbo ascende aos céus com meus miolos"

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

tarde e cigarros na esquina

me deprime o cheiro do capim cortado à máquina
me deprime toda essa morte, toda essa merda e essa porcaria e essas máquinas
e o cheiro, o cheiro me invade como um animal
começo a correr em campos em meia luz da manhã nascendo
quadrúpede, sem saber da vida ou de mim ou do que virá
onde ir? onde ir? que fazer? que ser?
e o cheiro do capim cortado a galope
e toda essa morte, essa merda, essa vida...
com a ânsia latente e o desejo contido
e o desejo contido violentamente por uma besta, um golpe que resvala no sangue e se entranha nos intestinos abrindo talhos na alma pra que se sinta um corpo...
e essa ânsia e essa vontade e esse impulso de não ser, não ser um corpo, não ser um tempo, não ser a vida e a decrepitude da vida e fugir, fugir prum campo em meia luz da manhã, longe de toda essa morte, essa merda, essa porcaria...
num gozo cheio de cheiros doces e macios que cai à morte e exaure os músculos e mói a carne e os ossos e as entranhas deixando jogado imóvel e dilacerado o corpo pra que a alma e o amor e o sexo possam evaporar sublimes e encontrar um ao outro mortos e além da vida...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

quarto

tentei alcançar a lua e a comi
um estranho enevoado a tirou de mim
olhei-o nos olhos escuros
tive medo de todo esse mau instinto, essa ingenuidade medíocre que me corre nas veias...
olhei-a, os braços estendidos ao céu acima das estrelas...
caí ao chão
sua imagem branca de brilho chuvoso borrava meus olhos e apagou tudo que eu tinha
ah... que prazer em desmanchar como uma aquarela...
e o brilho branco quase cego que me olhava e me transformava em ninguém, um indigente amorfo
a noite como um betume que tingia tudo de uma madeira triste
ela envolta no lençol vermelho que eu fiz
caí no chão
um gosto de gasolina e borracha preta
e esse estranho borrado que me persegue

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

dos rios

 a vida tanto se modifica e se esvai como a alma triste dos cadernos empoeirados
sua morte viva estampada em festa ou fábulas do garcia
olho o amarelado das folhas do que seria ontem, toda melancolia de um dia que passou como chuva numa tarde calada...
essa vida morta, todo sentir puro, imagino seu vazio, futuro, que aterrador, que monstruoso...
a tristeza das coisas ínfimas, das borboletas e efêmeras... da delicadeza arrasada sua ingenuidade um segundo antes...
e o presente, esse uma página amarelada vivendo sua alvura...
se perde, tudo se perde em meio ao vazio sem fim, logo faz parte dele...
como delicadeza triste das coisas ínfimas... as borboletas e efêmeras...
tudo isso, toda vida, algo tão ingênuo e ínfimo que faz querer anular, ir ao teto, tocar o céu em comoção depois cair cair cair... como uma formiga com vento de chuva...
a comoção é único momento que realidade se torna todo... comoção me preserva a vida...
por isso, apenas, vivo, me nego não viver... é tão maior, tão maior que o vazio... como comprar pêssegos insones ao amanhecer com lembranças de noite, e rosado manchado de luz vermelha macio de lençóis... cigarros desolados de navalha e saudades...
viver é uma morte maior...