Seria essa a maldição
Prever o que não mudará
Viver a morte futura
Levando vermes na sombra
nos pés talham o encontro
Furos, dutos, vasos
Canais hemorrágicos
Memória das chamas
Da cidade dos cavalos
Seria, foi, é
Nascida Cassandra
Das árvores que lhe comeram as cinzas
Dos homens que lhe comeram os frutos
Fecunda no ventre dos bárbaros
Novos descendentes da cidade dos cavalos
Com a memória das chamas
Com os olhos miseráveis
Com os vermes que talham na carne
Um caminho que não mudará
Viva e morta, Cassandra
em 02/08/08
(Sinceros agradecimentos a Mayra Meira por ter me ajudado a obter um acaso fundamental, não pra escrever... mas pra me lembrar em boa hora)
velhas... como os postes... as sementes do mal... os comedores de folhas......... como as crianças da lavadeira abandonada os porcos voam...
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Amanhecer enquanto espírito
Logo ao clarear o sol
caminho
enquanto a noite se faz presente pelo seu frio
enquanto é noite
frio... presente
retoma meus laços de criança
retorna... no meu contrato com o mundo
esses momentos breves da manhã
ainda mais, presente, assim me sinto
em memória, borrado de azul, alheio ao tempo
absolutamente puro, presente, alheio ao não eu, agora...
lilás, azul, um elefante...
nuvens
pássaros
luz
frio
sinto tudo
absolutamente cruel, sinto tudo
e em cada imagem que vejo, duas cores
na mais absurda dualidade que me permite dois braços
vou com o vento e fico
Minha carcaça se traduz falsa no evento do entardecer.
caminho
enquanto a noite se faz presente pelo seu frio
enquanto é noite
frio... presente
retoma meus laços de criança
retorna... no meu contrato com o mundo
esses momentos breves da manhã
ainda mais, presente, assim me sinto
em memória, borrado de azul, alheio ao tempo
absolutamente puro, presente, alheio ao não eu, agora...
lilás, azul, um elefante...
nuvens
pássaros
luz
frio
sinto tudo
absolutamente cruel, sinto tudo
e em cada imagem que vejo, duas cores
na mais absurda dualidade que me permite dois braços
vou com o vento e fico
Minha carcaça se traduz falsa no evento do entardecer.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Sem título de fim de setembro
Tenho queda ao escorbuto
se de azedo não me faço
no mar padeço
se fora dele me apeio
não duro um ano
ganho um tanto cor-de-cinza ou tom-de-pálido
me torno breve
esqueço minhas heresias
capaz é de ao meio-dia me jogar ao chão
me enfiar por entre a terra como peixe n'água
tenho queda a verminose
se de azedo não me faço
no mar padeço
se fora dele me apeio
não duro um ano
ganho um tanto cor-de-cinza ou tom-de-pálido
me torno breve
esqueço minhas heresias
capaz é de ao meio-dia me jogar ao chão
me enfiar por entre a terra como peixe n'água
tenho queda a verminose
sábado, 16 de agosto de 2008
Licantropia
Escuro
apenas o ar e o tato, escuto
a mim, meu corpo, inane
sinto... toco a minha imagem
inane
me aproximo...
os sons ecoam com o arrastar de meu dedo sobre mim mesmo
canto disforme, acordes maculados
agudo cortante, grito
uma lasca de minério refinado, me invade...
veneno, chumbo
o correr do sangue metalizado em cinza cessa meus sentidos
sua nova essência, fria, lacera o meu sentir
dormente, me recordo de um frio...
frio outro, reconfortante
enquanto meu ser se perde na consciência do extinguir
e...
na consciência...
no extinguir...
perdido...
Não sou.
apenas o ar e o tato, escuto
a mim, meu corpo, inane
sinto... toco a minha imagem
inane
me aproximo...
os sons ecoam com o arrastar de meu dedo sobre mim mesmo
canto disforme, acordes maculados
agudo cortante, grito
uma lasca de minério refinado, me invade...
veneno, chumbo
o correr do sangue metalizado em cinza cessa meus sentidos
sua nova essência, fria, lacera o meu sentir
dormente, me recordo de um frio...
frio outro, reconfortante
enquanto meu ser se perde na consciência do extinguir
e...
na consciência...
no extinguir...
perdido...
Não sou.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
X - O ermitão
A tarde migrei pras montanhas. Dentre galhos e cascalho mudei meu espaço, na mudança desse laço desmantelei meu mundo e com outras peças fiz onde vivo, inominável, qual o totem de um espírito ancestral. Desfeito do ambiente determinável, inominei o tempo, agora apenas uma sensação, radiação incontável tal qual o frio, tal qual o medo (e talvez mais próximo do que é, se houver um “ser” e se for um só)... ousaria dizer que me sinto infinito, estaria mentindo, ou inexistente. Fato é que me sinto, sem saber muito bem como (as vezes se assemelha a uma sombra passada).
A noite encontrei com lobos e lagartos. Sinto uma simpatia pelo seu estado. Sinto – minto – imagino sua realidade, espreito suas ações. Ainda pulsa em meu sangue as palavras que fazem deles meus irmãos e, apesar de quebrado o elo, não somos tão diferentes, inconscientes formamos o mesmo organismo. Busco este elo, ambiciono pelos olhos dos deuses e titãs... preciso me livrar dos números. Fim de noite, não comi... me intriga dialogar com lagartos.
No amanhecer senti o orvalho. Com o ar úmido sinto meus pulmões. Planejo sentir tudo quanto possível, planejo inspirar o inominável e expirar seu vapor. Forma de analisar e perceber a qual me renegou minha má educação por não poder ser escrito ou descrito. Enquanto isso me habituo com o relógio desfeito, aguardo o musgo crescer em minhas costas e me tornar um bixo-preguiça... imagino-me, adiante, como autônomo. Autônomo não-robótico, não alienado de si mesmo, mas plenamente ciente de si e do seu redor, num dizer calado e intenso com tudo e com todos... imagino-me como célula do meu corpo desejando sentir-me todo.
Meio-dia, vejo um campo de flores. Sinto ainda muitos traços de minha educação... receio que acabe por transformar minha busca em fuga, talvez tenha medo... por um segundo tudo pode ser – e parece ser – ilusório. Talvez não consiga ou não saiba abrir as portas do tártaro, talvez a besta (um objeto de minha busca) esteja fadada a sussurrar acorrentada no limbo da minha mente... irei ao campo de flores, a luz de suas cores me atraem.
A noite encontrei com lobos e lagartos. Sinto uma simpatia pelo seu estado. Sinto – minto – imagino sua realidade, espreito suas ações. Ainda pulsa em meu sangue as palavras que fazem deles meus irmãos e, apesar de quebrado o elo, não somos tão diferentes, inconscientes formamos o mesmo organismo. Busco este elo, ambiciono pelos olhos dos deuses e titãs... preciso me livrar dos números. Fim de noite, não comi... me intriga dialogar com lagartos.
No amanhecer senti o orvalho. Com o ar úmido sinto meus pulmões. Planejo sentir tudo quanto possível, planejo inspirar o inominável e expirar seu vapor. Forma de analisar e perceber a qual me renegou minha má educação por não poder ser escrito ou descrito. Enquanto isso me habituo com o relógio desfeito, aguardo o musgo crescer em minhas costas e me tornar um bixo-preguiça... imagino-me, adiante, como autônomo. Autônomo não-robótico, não alienado de si mesmo, mas plenamente ciente de si e do seu redor, num dizer calado e intenso com tudo e com todos... imagino-me como célula do meu corpo desejando sentir-me todo.
Meio-dia, vejo um campo de flores. Sinto ainda muitos traços de minha educação... receio que acabe por transformar minha busca em fuga, talvez tenha medo... por um segundo tudo pode ser – e parece ser – ilusório. Talvez não consiga ou não saiba abrir as portas do tártaro, talvez a besta (um objeto de minha busca) esteja fadada a sussurrar acorrentada no limbo da minha mente... irei ao campo de flores, a luz de suas cores me atraem.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Ode às Bruxas
Aqui estou
nua e crua em carne
Aqui estou, beija-me
Beija-me com o asco dos teus olhos revelados
a uma figura fúnebre do teu amor
Me toca
Vem
Absorve esse horror imanente das minhas rugas...
me absorve, te entorpe na dança da decadência
O quê? Não te moves?
Acaso não fui ontem teu mundo?
Ontem quando usava rosto de porcelana
sapatinhos do rei Luis
minhas cores
meus paetês
fizeste de mim teu santuário...
que naufrago!
Miraste a miragem
E eu dentre todas a mais corroída...
maçã cheia de vermes e verniz
Eu fui teu naufrágio, raso doutor...
Não te moves? Morto!
Cadáver que sempre foste tem nojo de tua noiva viva
Vem, te eleva inane corpo
Te encanta nesta fabulosa ode às bruxas...
E pela janela assistirão o arder de nossas roupas jogadas ao fogo
Que em cinzas se purificarão dos pecados da inquisição
Libertas...
nua e crua em carne
Aqui estou, beija-me
Beija-me com o asco dos teus olhos revelados
a uma figura fúnebre do teu amor
Me toca
Vem
Absorve esse horror imanente das minhas rugas...
me absorve, te entorpe na dança da decadência
O quê? Não te moves?
Acaso não fui ontem teu mundo?
Ontem quando usava rosto de porcelana
sapatinhos do rei Luis
minhas cores
meus paetês
fizeste de mim teu santuário...
que naufrago!
Miraste a miragem
E eu dentre todas a mais corroída...
maçã cheia de vermes e verniz
Eu fui teu naufrágio, raso doutor...
Não te moves? Morto!
Cadáver que sempre foste tem nojo de tua noiva viva
Vem, te eleva inane corpo
Te encanta nesta fabulosa ode às bruxas...
E pela janela assistirão o arder de nossas roupas jogadas ao fogo
Que em cinzas se purificarão dos pecados da inquisição
Libertas...
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Velado
Há algo a ti
há algo que não te direi
que não será falado
talvez guarde, esconda um pouco
algo pra ti
será teu sem que o saiba
será teu, da invisibilidade lasciva
com que fabrico sua caixa
um doce presente ignorado
há algo pra ti que não disse
há algo que não canso de dizer
te digo quando te olho
te grito quando te toco
suavemente te quase digo
sutilmente te previno...
não importa
é melhor talvez
teu pingente de brilhantes
transparentes
ignorados
há algo que não te direi
que não será falado
talvez guarde, esconda um pouco
algo pra ti
será teu sem que o saiba
será teu, da invisibilidade lasciva
com que fabrico sua caixa
um doce presente ignorado
há algo pra ti que não disse
há algo que não canso de dizer
te digo quando te olho
te grito quando te toco
suavemente te quase digo
sutilmente te previno...
não importa
é melhor talvez
teu pingente de brilhantes
transparentes
ignorados
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