quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

XII - Ateu

Rápido
enquanto me consumo
rápido, certo
como a sagacidade cruel de um pensamento ao meio dia
alto, frenético, entorpecido
em meu corpo imolado a euforia flamável vibra... e minhas cinzas se elevam calmamente
fui eu...
o fogo
fui eu, o fósforo...
e o liquido quente que escorria...
fui...
agora calmamente, meu bem
já não acredito em mim mesmo ou no sol
cinza, minúsculo

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

XI - Fauno

Andei, ando, até tal momento onde ocorre de inexato tua aparição (ou mais certo seria a minha). Não te percebi em forma de frio, então névoa, então algo que se reflete no liso das folhas e fungos dos galhos. Sussurrasse lamúrias, que a mim se passaram pelo irremédio dos meus sonhos diurnos. Tomasse forma, te percebi. Tal qual parede em minha frente, teus cascos ampliados pelo foco do meu espanto. Estático te vi por completo, dois pares de olhos e uma boca bem desenhada, com enrolados de cabelo preto e um par de chifres redondos.... te encontrava a espelhar o sol, assumindo uma forma grandiosa de Pan sob vista de Apolo. Não foi de imediato que percebi que foi causa que planejasse toda a cena... todavia causasse meu encanto.

“Lucio” a mim como se dançasse, “contame teu desejo de não ser” e foi como brincadeiras de sátiro. E ecoou... “contame”, “contame teu desejo de não ser”, “contame teu desejo”. Olhei abaixo, olhei o sol reflexo... “sinto frio” enquanto esboçava um sorriso triste. Olhou abaixo, olhou a mim... “vaite embora” a mim como sussurro, “não foi o que pedi” e isso se tornando distante.

Ando... até tal momento onde ocorre de inexato tua aparição. Ainda hoje prefiro não pensar que foi causa que planejasse toda a cena... ou mais certo seria eu.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A triste indiferença do esquecimento (Parte III)

No escuro da noite escuto os estalos
Dos sonhos manchados, esfacelados em mil partes
Há vontade de se contrapor ao eu imperante
Escuto os estalos de pés que se movem
No silêncio da noite cuidadosamente
E acima dos pés: planaltos, planícies...
contextualizados de forma imaginativa
Querendo anciosamente um significado
para estar acordado tão tarde da noite
A procura de sombras, contornos, marcas
Os móveis estalam, a casa estala
Estão crescendo no âmbito sombrio
No escuro não podem enxergar com precisão
Não se pode juntar partes, consertar sonhos,
limpar as manchas.
Volto para a cama na espera de novo sonho
Esqueço-me do anterior

domingo, 26 de outubro de 2008

Mede in China

A luz refletia nas águas
Era a lua artificial em águas artificiais
Eram meus olhos falsos
Falsas cantigas com letras de mentira
A noite era uma farsa.
Para casa caminhei em procissão
Numa reza sem sentido.
A lua de refletor derretia o plástico
Quando dei por mim a máscara derretia
Meus olhos falsos, meus sentimentos falsos
A mudez do outro, mudez do escuro
Nada mais,
mas até o nada era triste farsa
Até o escuro. O escuro não existia
Era a sede do tempo, e esse eu não sabia
Derreto em prantos de plástico por fim
Afogo-me no calor da mentira
Minto para o tempo,
Esse que já nem sei,
Para o tempo que não existe.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Cassandra

Seria essa a maldição
Prever o que não mudará
Viver a morte futura
Levando vermes na sombra
nos pés talham o encontro
Furos, dutos, vasos
Canais hemorrágicos
Memória das chamas
Da cidade dos cavalos

Seria, foi, é
Nascida Cassandra
Das árvores que lhe comeram as cinzas
Dos homens que lhe comeram os frutos
Fecunda no ventre dos bárbaros
Novos descendentes da cidade dos cavalos
Com a memória das chamas
Com os olhos miseráveis
Com os vermes que talham na carne
Um caminho que não mudará

Viva e morta, Cassandra

em 02/08/08

(Sinceros agradecimentos a Mayra Meira por ter me ajudado a obter um acaso fundamental, não pra escrever... mas pra me lembrar em boa hora)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Amanhecer enquanto espírito

Logo ao clarear o sol
caminho
enquanto a noite se faz presente pelo seu frio
enquanto é noite
frio... presente
retoma meus laços de criança
retorna... no meu contrato com o mundo
esses momentos breves da manhã
ainda mais, presente, assim me sinto
em memória, borrado de azul, alheio ao tempo
absolutamente puro, presente, alheio ao não eu, agora...
lilás, azul, um elefante...
nuvens
pássaros
luz
frio
sinto tudo
absolutamente cruel, sinto tudo
e em cada imagem que vejo, duas cores
na mais absurda dualidade que me permite dois braços
vou com o vento e fico

Minha carcaça se traduz falsa no evento do entardecer.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Sem título de fim de setembro

Tenho queda ao escorbuto
se de azedo não me faço
no mar padeço
se fora dele me apeio
não duro um ano
ganho um tanto cor-de-cinza ou tom-de-pálido
me torno breve
esqueço minhas heresias
capaz é de ao meio-dia me jogar ao chão
me enfiar por entre a terra como peixe n'água

tenho queda a verminose