sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Caleidoscópio

sonhei um orfanato
era criança
todos eram os meus
nenhum era
noite molhada de chuva em dia de cometa
ultimo dia da era, derretendo, se tornando macio e lamacento
uma semente vermelha cintilante que virá
a orfandade uma prisão... dividíamos cigarros, as crianças, tudo era meu, das crianças, nada era
meu corpo se perdia na insignificância de não ter o que perder
e meu corpo se fazia livre por comungar da miséria de tudo que havia
uma irmã se tinha ido embora numa tristeza de outono
invadimos seu quarto, escondido atrás das voltas da escada em caracol
uma luneta de copos de vidro e uma janela a se olhar a lua
segredo que calava em uma criança, na irmã, em ninguém
e todas as coisas místicas que se escondiam em cinzar de incenso
e o cometa
de encontro a noite derretida como viesse copular
como tivesse passado por ali o Caio, que tivesse ido embora numa tarde de outono e esquecido seu tarot, arcanos maiores do Crowley, dentro de uma gaveta, com pequenas coisas ao redor
realizei pouco antes de acordar, aquele quarto era meu, e o cometa e a chuva, a irmã de outono, as cinzas do Caio, a criança, a miséria virtuosa
senti por um momento... e te encontrei por lá
em qualquer coisa que faça parte de um eu que existe
onde me encontro
ou onde deliro

terça-feira, 17 de agosto de 2010

bichos da seda

de um devaneio noturno o teto desaba em chuva
algum ser que me povoa aflora em pequenas erupções
“pelos chifres deve ser um fauno”, diz algum ser
silêncio... digo àlgum ser, em pequenas erupções
“começa cheirar a musgo”, diz algum ser
me viro... digo àlgum ser, tomando atenção ao cheiro da sala
o teto desaba em chuva, um devaneio toca os pingos em melodias fantásticas
é noite do meu amor... assim como foi o dia e será de madrugada
é noite da estrela que me levou, lhe ofereço meu sangue frio e meu corpo inerte
“ele chegou, anda quase cego”, diz algum ser, como uma mácula às minhas costas
vejo sua face e as lagartas que lhe comem o tronco dependuradas em casulos
os pingos tocam os fios de seda em acordes azuis, a cor da sala se dissolve no chão
vejo sua face e o que ela me revela, em pequenas erupções
é noite, uma renda vermelha presa a liga, meu gozo escorre misturado a sons doces em coxas brancas, insípido... some
me viro, tomando atenção ao cheiro da sala, um gato que vomita as cadeiras da mesa de jantar
meu corpo inala um gosto podre e azedo
silêncio... e os olhos vermelhos de insônia, quase cegos, não me reconheço
enquanto a chuva ascende à cal do teto
cristalizando em manchas de mofo

sábado, 14 de agosto de 2010

amaro

olho no espelho e vejo meus olhos
e em meus olhos é a morte que vejo
olhei a árvore na rua, na praça
uma imagem turva de mangueira
uma imagem nua de crueza enevoada
é a vida das árvores e dos gatos
ela exala à noite, de madrugada
aqui tudo derrete com o tempo de madrugada
a suculenta nasce discretamente e as imagens morrem
as flores anunciam o fim do ano das castanhas
o óleo de queimar a pele, de por nódoas nos dedos
de manchar de árvore
se é preciso ser árvore pra se ser um gato enevoado
e a vida de madrugada que molha o chão
e qualquer coisa que for água é imagem
olhei nos teus olhos e vi o sol atrás de ti no espelho
e demasiada luz a produzir imagens
falaram de um homem que queimava castanhas
o fogo incendiou seu corpo enodoado
chorou como um cajueiro
um sagüi o tirou da estrada assim que esteve frio
como fosse um coquinho

terça-feira, 29 de junho de 2010

amarrei o cachecol apertado no pescoço... contundia a minha pele, gritava algo audível, rouco, tudo é afônico quando se tem espasmos... não percebi que me matava... não queria que me matasse... mas era tudo afônico... tomei cuidado para não deixar restos que viessem a apodrecer... tudo deve se decompor em pequenos grãos, sem apodrecer, sem gritar, afônico, contundido... aquele outro se aproveita da minha fraqueza, da minha miséria... aquele outro... me emputece... escolheu me irritar, me debati, dei-lhe socos... choques que quebram o silêncio aos poucos... escolheu algo macio... e me matei com o cachecol... deixando o sangue fluir... e me impedir de me decompor... em pequenos grãos... como todas as outras vezes...
só a enxaqueca me lembra de meus atos... ela passa, eu passo, tudo se vai a dormir... aquele outro, só me deixa ser dormindo... durmo... me esqueço... faz frio, não sinto meus dedos... teatro... não vão me ver porque durmo... que se fodam...
ele sabe que o sono vai me imergir no meu amor...

sexta-feira, 25 de junho de 2010

de uma máquina, uma pedra e poças d’água

corta as laranjas com a faca que apontou grafite
pequenos diamantes, pequenos brilhos
calor de sol, não, frio
borra de café
corta os dedos com a faca que apontou grafite
perfume, velas acesas
calor de sol, não, café, não, cristais de areia
risca as paredes com a faca que cortou grafite, não
os dedos, não, o sol, risca o sol com pequenos brilhos frios, não
mortos, como borra de café, não, risca as veias com grafite, não, que a faca cortou,
os nós, a ressaca, não, foram comprimidos, violentados na parede, na superfície, na película de sua língua, dois pardais que haviam se formado da imbecilidade da idéia e lhe pousaram na face, escorrendo como lagrimas de um cuspe do Rosellini...
a criatura encaracolada, erótica, exalante, absolutamente ausente... que lhe cheirava a sexo como um anjo que comesse pão preto... que lhe molhava orgástica a excitação... só trazia o pensamento dos prédios, do que não existe, impotência em lamber sem comos...
ascendia 15 andares, dava mais um salto, ao paraíso nada que valesse mais a pena que seu cigarro, caía como uma pedra, uma fruta ou merda de pássaro
não
cortava laranjas com a faca que apontou grafite, riscava os gomos com resto de borra, sentia como cropófago comendo merda, sujeira, mas era só um idiota. se excitava com o cheiro dos entes encaracolados, molhados, brilhantes, que desfilavam no calor do sol...
não

estrada do engenho

a idéia permeou-me a mente
com todos os ruídos, com toda a música
com todas as pedras que balançam por sob as rodas
tu, que era nada, poesia
tu, era nada, era bela, qual em caracóis e rastros doces...
te arrastava, te jogava, te erguia, fluida, inconsciente
tu era imagem, tu que não existe...
teu nome, pouco me cabe... mas me cabe o dia
não tu, imagem, não tu, cheiro doce a gozo que subverte o meu domínio
mas idéia, tu que é todo abstrato, que não existe, tu idéia...
que me subverte da fala
que minha boca não é por si a fala, que é sentir, lamber, comer... não a ti... tu que não existe, que existisse não seria nada... tu é imagem, película, poesia... e vejo...
por todas as ruas das pedras que balançam...
o raciocínio faz do ser um monstro

segunda-feira, 21 de junho de 2010

cigarros de palha cabem à refumaça
melhor refumar cotocos de fumo que ópio
destitui a dignidade de se intoxicar
e restitui a mediocridade de mimetizar o Manoel