sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Ascensão à luz

o homem se reduz em sua casa até o ponto em que se domestica
se reduz até encolher numa pequenez as coisas no caber de dizer de seu
reduz a abstração a pequenos objetos
então cessa de viver, por não caber a vida à vida que entalhou delicadamente
o homem em sua natureza é como um lobo... como a abstração de um lobo...
como a abstração de qualquer animal ou coisa
um vaguear em sentidos, se quedar osmótico na estepe, se quedar num perceber absolutamente abstrato de um ciclo de eletrochoques transcendentes as dimensões da vista, na infinitude do que não se cabe a contagem e, por isso, não se faz em extensão inimaginável
o homem domestica a abstração à concretude parametizável
precisam caber como fichas nos seus sulcos entalhados, precisam ser entalhadas, também, as coisas, forjadas em fichas, depositadas como hóstias na boca dos sulcos, rangendo e tintilando, iniciando o mecanismo dos brinquedos, dos refrigerantes
mas o homem em sua natureza é como o lobo, como a explosão shamãnica de adentrar um lobo pelos olhos
incapaz de se conter na pequenez de caber dizer um si
incompreensível à extensão de objetos, de pequenos objetos
incomprimível...

e a exaltação se fez como brilhasse uma luz, e reluziu na insanidade de alguns, dos seus, como divino, o lumiar incandescido de uma face transfigurada em restos, desvencilhada do que aprisionava desde os dedos dos pés e o ventre e agora voa ou talvez apenas finda.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

e tu te ergueu como a dama de copas naquele dia enevoado
e havia um lago dentro de ti
enquanto pequenos vales se talhavam naquele dia enevoado
e tu derretendo pelo mundo verteu rios
pequenos capilares ainda sem vitórias régias
e o pedaço esvaziado
de lago que se verte embora

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

os botões se movem como pequenos besouros...
a chuva piano o ar...
evaporam pequenas comoções que já esqueci o rosto...
a chuva escala em pequenos apertos no meu peito...
retorna um vento frio...
como meu sangue fosse alvo... fosse neve...
como me confortasse um ar de casa...
que em criança me tremia...
e agora me aquece...

domingo, 10 de outubro de 2010

dos postes onde nada habita

vou pintar minhas paredes de azul
trazer uma noite azul esfumaçada ao meu quarto
manchar os dedos a cara impregnar de pingos
e então secar... e então pó a se dissolver no tempo
não pode me pintar não pode me por cores
minhas paredes ruínas onde ninguém habita onde não habito
minhas paredes o fantasma ucraniano onde não vagueio...
onde te encontra fauno? onde te pusesse de mim?
a erva começa a cheirar no campo? não sinto
que é esta estação?
vou pintar de azul, esfumaçado, onde habita ouriço
para que ele habite, para que habite novamente
e que venha o fauno e comece a cheirar à erva
vivo entre as ruínas escorrendo entre as ruínas
onde deus se faz aos infelizes os seus enganos
e ergue os muros de seus desejos e as necessidades de clausura
e sufocam clausura
paredes de azul... esfumaçado como não fosse novo como fosse desabado, mas não vai ser...
quero me esgueirar na ferrugem nos tijolos cobertos de lodo na erva que começa a cheirar
com a alegria de sentir o ser
com a alegria de voltar
com o ar que invade e arde doce
stalker

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Caleidoscópio

sonhei um orfanato
era criança
todos eram os meus
nenhum era
noite molhada de chuva em dia de cometa
ultimo dia da era, derretendo, se tornando macio e lamacento
uma semente vermelha cintilante que virá
a orfandade uma prisão... dividíamos cigarros, as crianças, tudo era meu, das crianças, nada era
meu corpo se perdia na insignificância de não ter o que perder
e meu corpo se fazia livre por comungar da miséria de tudo que havia
uma irmã se tinha ido embora numa tristeza de outono
invadimos seu quarto, escondido atrás das voltas da escada em caracol
uma luneta de copos de vidro e uma janela a se olhar a lua
segredo que calava em uma criança, na irmã, em ninguém
e todas as coisas místicas que se escondiam em cinzar de incenso
e o cometa
de encontro a noite derretida como viesse copular
como tivesse passado por ali o Caio, que tivesse ido embora numa tarde de outono e esquecido seu tarot, arcanos maiores do Crowley, dentro de uma gaveta, com pequenas coisas ao redor
realizei pouco antes de acordar, aquele quarto era meu, e o cometa e a chuva, a irmã de outono, as cinzas do Caio, a criança, a miséria virtuosa
senti por um momento... e te encontrei por lá
em qualquer coisa que faça parte de um eu que existe
onde me encontro
ou onde deliro

terça-feira, 17 de agosto de 2010

bichos da seda

de um devaneio noturno o teto desaba em chuva
algum ser que me povoa aflora em pequenas erupções
“pelos chifres deve ser um fauno”, diz algum ser
silêncio... digo àlgum ser, em pequenas erupções
“começa cheirar a musgo”, diz algum ser
me viro... digo àlgum ser, tomando atenção ao cheiro da sala
o teto desaba em chuva, um devaneio toca os pingos em melodias fantásticas
é noite do meu amor... assim como foi o dia e será de madrugada
é noite da estrela que me levou, lhe ofereço meu sangue frio e meu corpo inerte
“ele chegou, anda quase cego”, diz algum ser, como uma mácula às minhas costas
vejo sua face e as lagartas que lhe comem o tronco dependuradas em casulos
os pingos tocam os fios de seda em acordes azuis, a cor da sala se dissolve no chão
vejo sua face e o que ela me revela, em pequenas erupções
é noite, uma renda vermelha presa a liga, meu gozo escorre misturado a sons doces em coxas brancas, insípido... some
me viro, tomando atenção ao cheiro da sala, um gato que vomita as cadeiras da mesa de jantar
meu corpo inala um gosto podre e azedo
silêncio... e os olhos vermelhos de insônia, quase cegos, não me reconheço
enquanto a chuva ascende à cal do teto
cristalizando em manchas de mofo

sábado, 14 de agosto de 2010

amaro

olho no espelho e vejo meus olhos
e em meus olhos é a morte que vejo
olhei a árvore na rua, na praça
uma imagem turva de mangueira
uma imagem nua de crueza enevoada
é a vida das árvores e dos gatos
ela exala à noite, de madrugada
aqui tudo derrete com o tempo de madrugada
a suculenta nasce discretamente e as imagens morrem
as flores anunciam o fim do ano das castanhas
o óleo de queimar a pele, de por nódoas nos dedos
de manchar de árvore
se é preciso ser árvore pra se ser um gato enevoado
e a vida de madrugada que molha o chão
e qualquer coisa que for água é imagem
olhei nos teus olhos e vi o sol atrás de ti no espelho
e demasiada luz a produzir imagens
falaram de um homem que queimava castanhas
o fogo incendiou seu corpo enodoado
chorou como um cajueiro
um sagüi o tirou da estrada assim que esteve frio
como fosse um coquinho