sexta-feira, 25 de julho de 2008

X - O ermitão

A tarde migrei pras montanhas. Dentre galhos e cascalho mudei meu espaço, na mudança desse laço desmantelei meu mundo e com outras peças fiz onde vivo, inominável, qual o totem de um espírito ancestral. Desfeito do ambiente determinável, inominei o tempo, agora apenas uma sensação, radiação incontável tal qual o frio, tal qual o medo (e talvez mais próximo do que é, se houver um “ser” e se for um só)... ousaria dizer que me sinto infinito, estaria mentindo, ou inexistente. Fato é que me sinto, sem saber muito bem como (as vezes se assemelha a uma sombra passada).

A noite encontrei com lobos e lagartos. Sinto uma simpatia pelo seu estado. Sinto – minto – imagino sua realidade, espreito suas ações. Ainda pulsa em meu sangue as palavras que fazem deles meus irmãos e, apesar de quebrado o elo, não somos tão diferentes, inconscientes formamos o mesmo organismo. Busco este elo, ambiciono pelos olhos dos deuses e titãs... preciso me livrar dos números. Fim de noite, não comi... me intriga dialogar com lagartos.

No amanhecer senti o orvalho. Com o ar úmido sinto meus pulmões. Planejo sentir tudo quanto possível, planejo inspirar o inominável e expirar seu vapor. Forma de analisar e perceber a qual me renegou minha má educação por não poder ser escrito ou descrito. Enquanto isso me habituo com o relógio desfeito, aguardo o musgo crescer em minhas costas e me tornar um bixo-preguiça... imagino-me, adiante, como autônomo. Autônomo não-robótico, não alienado de si mesmo, mas plenamente ciente de si e do seu redor, num dizer calado e intenso com tudo e com todos... imagino-me como célula do meu corpo desejando sentir-me todo.

Meio-dia, vejo um campo de flores. Sinto ainda muitos traços de minha educação... receio que acabe por transformar minha busca em fuga, talvez tenha medo... por um segundo tudo pode ser – e parece ser – ilusório. Talvez não consiga ou não saiba abrir as portas do tártaro, talvez a besta (um objeto de minha busca) esteja fadada a sussurrar acorrentada no limbo da minha mente... irei ao campo de flores, a luz de suas cores me atraem.

3 comentários:

Manda disse...

são emaranhados de palavras,uma por cima das outras, encantador...



encantador ...

sempre que puder virei aqui me deleitar ... =)

Manda disse...

não nos conhecemos ... axei você na base do "um blog puxa o outro"
mas estou me deleitando com seus escritos, e sobre as aranhas...há muitas delas por lá também.
=)


p.s=seria uma honra conhecer melhor você Srº Pato.

Jeronimo Lemos disse...

muito bom pato!
escrever é transpiração!
continui escrevendo, mas com a Kbça vazia, pois como dizem os filhos de seu Jesus, Kbeça vazia é oficina do diabo!